sexta-feira, 20 de junho de 2014

O PREÇO DA VITORIA


A maior parte da população de Dresden preferiu ignorar a alarme de ataque aéreo que soou exatamente as 21h51 de uma terça-feira, 13 de fevereiro de 1945. Foram tantos os alarmes falsos que os mais de 640 mil cidadãos estavam habituados a só buscar abrigo após o segundo alarme. A noite estava clara e uma brisa fria soprava por toda a cidade. A essa altura os motores dos 244 bombardeiros britânicos já podiam ser ouvidos em alguns bairros da periferia. Poucos minutos após as 22h os primeiros aviões surgiram e, em menos de cinco minutos, descarregaram 881 toneladas de bombas no centro histórico da cidade. Em poucas horas a região central se converteu num mar de chamas e o calor chegou a ser sentido pela tripulação dos bombardeiros a 3 mil metros de altura. Aqueles que conseguiram escapar do inferno que tomou conta do centro histórico não podiam imaginar que o pior ainda estava por vir. Entre a meia noite e o meio dia de 14 de fevereiro a cidade sofreria mais dois ataques devastadores, cujos incêndios foram vistos a mais de oitenta quilômetros da cidade e provocaram a morte de quase 40 mil pessoas.
Sessenta e nove anos após o terrível bombardeio aliado a cidade de Dresden os questionamentos morais acerca do fato ainda rendem debates acalorados. Em “Dresden – terça feira 13 de fevereiro de 1945” o autor Frederick Taylor esmiúça um dos mais conturbados eventos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se coloca diante de uma proposta, no mínimo, ousada: a de que o bombardeio foi um ataque militar legitimo contra alvos militares e não contra uma cidade indefesa. O caráter fortemente tendencioso da narrativa é um dos pontos fracos da obra, mas os inúmeros relatos impressionantes dos sobreviventes que enfrentaram temperaturas de até quinhentos graus e ventos com mais de oitenta quilômetros por hora, fazem valer a leitura das quase 600 paginas de um texto ágil e absolutamente chocante. Taylor nos expõe um quadro vivo e sem atenuantes de uma das maiores arenas de sofrimento humano do século XX. Relatos de pessoas que morreram literalmente cozidas enquanto buscavam alivio para o calor dos incêndios dentro das fontes e reservatórios de água da cidade, ou da desesperada luta de sobrevivência – ironicamente um exemplo Darwinista tão amplamente defendido pelos nazistas - em meio a ruas cobertas por asfalto derretido e por corpos de vitimas asfixiados pela fumaça dos incêndios.
Ao amanhecer do dia 14 de fevereiro, “quarta-feira de cinzas”, Dresden já não era mais uma cidade. Reduzida a milhares de toneladas de escombros enegrecidos e deformados pelo calor a chamada “Florença do Elba” estava praticamente irreconhecível. Aqueles que conseguiram sobreviver ao cataclisma da noite anterior tiveram de enfrentar mais uma trágica ironia do destino: varias “grelhas” haviam sido montadas na região da praça do mercado central de Dresden para queimar os corpos retirados dos porões ainda quentes, mesmo após uma semana do bombardeiro. Ao final da leitura é impossível não se questionar sobre a real necessidade de um ataque com tamanha magnitude e violência. Faltava pouco mais de oitenta dias para o fim da segunda guerra mundial. Mas assim como Hiroshima, Dresden é o exemplo trágico de que e “melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
DRESDEN - TERÇA-FEIRA, 13 DE FEVEREIRO DE 1945
Autor: TAYLOR, FREDERICK
Editora: RECORD
Número de páginas: 588

sábado, 21 de dezembro de 2013

A REALIDADE ATRAVÉS DE OLHOS ANÔNIMOS


Obra “Uma mulher em Berlim – Diários dos últimos dias de guerra” retrata os dramas da população feminina da capital alemã durante a ocupação soviética.
Ler qualquer obra sobre a Segunda Guerra Mundial não é uma tarefa fácil. É exigida do leitor uma natureza essencialmente paradoxal: sensibilidade para compreender a magnitude daquele momento histórico, cujos dramas particulares talvez não encontrem paralelo equivalente em nenhuma outra época, assim como uma frieza seletiva, fundamental para se conduzir a leitura até o fim. Não faltam exemplos de obras cujo foco são os dramas vividos pela população civil durante os quase seis anos de conflito. O extermínio nos campos de concentração, a vida nas cidades sob a ocupação nazista bem como relatos biográficos dos sobreviventes, lotam as prateleiras das livrarias atendendo a um publico bastante restrito, ainda que expressivo. Recentemente o publico alvo dessas obras parece ter se tornado mais permeável e menos resiliente quanto à absorção de textos que abordem o drama da população alemã, considerada desde o fim do conflito como a grande vila no contexto da guerra.
Nenhuma dessas obras, no entanto, buscam remodelar a imagem do nazismo ou levantar duvidas quanto a natureza de seus crimes. Através da exposição do sofrimento inigualável que marcou os 12 anos do governo de Adolf Hitler, esses textos acabam por reafirmar a imagem negativa de um governo autoritário, militarista e agressivo que se fechou dentro de um conceito de raça, amparado por uma insanidade ideológica tão absurda que permanece pouco compreendida até os dias atuais.
Em abril de 1945 a Segunda Guerra Mundial na Europa já estava perto do fim. Com a capital alemã cercada e arrasada pelas forças soviéticas não faltaram exemplos de determinação e resistência entre a população daquela que já havia sido uma das mais belas e modernas cidades do mundo. Berlim havia sido reduzida a uma gigantesca arena de sofrimento humano, e naqueles dias finais do conflito a guerra cobraria seu preço daquelas que haviam se mantido distante dos campos de batalha, ainda que obrigadas a conviver com uma escala de destruição até então nunca vista sobre a terra. Cerca de 100 mil mulheres foram violentadas durante a ocupação soviética de Berlim. O número de suicídios decorrentes dos abusos é ainda incerto. O assunto é uma espécie de tabu para as autoridades da Federação Russa e da própria Alemanha devido ao constrangimento que o mesmo invoca. Parte da população de ambos os países ainda recebem com hostilidade qualquer assunto relacionado ao que definem simplesmente como “aquilo”. Apesar dessa tímida restrição moral, muitas obras de conteúdo “constrangedor” foram publicadas desde o termino do conflito, dentre as quais se pode destacar o livro “Uma mulher em Berlim, diário dos últimos dias de guerra”.
O que vemos nas mais de duzentas paginas do livro é a narração fria e metódica de um campo de batalha infinitamente mais pessoal e cruel, que não pode ser caracterizado através imagem natural que fazemos de um campo coberto de trincheiras, fumaça e arame farpado, mas pela ausência de qualquer resquício de moralidade por parte dos vencedores. Deparamos-nos com uma narrativa viva onde a natureza primitiva e selvagem dos homens encontra espaço dentre as indescritíveis misérias impostas pela realidade da guerra.
Aqui vemos uma singular, e admirável, característica dos eventos históricos: sua tendência natural em se imortalizar através de qualquer objeto que permita um simples registro dos acontecimentos. Em meio os destroços deixados pelas bombas, três simples cadernos escolares serviram para registrar os acontecimentos impressionantes vividos por uma cidadã berlinense entre os dias 20 de abril e 22 de junho de 1945. O texto, em forma de diário, seria datilografado pela própria autora poucos anos após a guerra e entregue a um editor de Nova York. Em 1954 ele é lançado em forma de livro, rendendo desde então criticas variadas.
Apesar da escassa quantidade de dados biográficos sobre a narradora, que resolveu permanecer anônima por motivos que se tornam óbvios ao final da leitura, ainda sim é possível traçar um perfil da mesma com base nas informações disseminadas ao longo do texto. Trata-se de uma mulher na faixa dos trinta anos de idade, proveniente de uma família burguesa e com um a bagagem cultural no mínimo bastante evidente. Após percorrer vários países europeus, chegando inclusive a passar um período em Moscou, ela teria se estabelecido em Berlim, onde permaneceu até a rendição final da Alemanha. A narrativa tem inicio numa sexta feira, dia 20 de abril de 1945, aniversario de 56 anos de Adolf Hitler:
“Sim a guerra vem rolando em direção a Berlim. O que ontem ainda eram resmungos distantes, hoje é um rufar continuo. Respira-se o ruído da artilharia.”
A relação entre os vencedores e os vencidos, ou seja, entre os conquistadores e os conquistados, é desnudada através das palavras de uma testemunha, que apesar do seu empenho em produzir uma narrativa áspera e desprovida de sentimentos, em muitos momentos acaba cedendo aos devaneios de um passado em nítido contraste com a realidade brutal da guerra.
O estupro, no contexto da obra, não se encaixa na clássica definição de crime hediondo; o mesmo emerge como um aspecto do cotidiano da população feminina. Por trás dessa tentativa de banalizar um evento, cuja própria natureza cruel parece agir no sentido contrario, se esconde um impulso feroz de evidenciar os dramas particulares da própria narradora. Em nenhum momento temos a impressão de que a mesma tenta se colocar como vitima dos eventos do qual foi expectadora e muitas vezes antagonista. Relatos impressionantes estão espalhados ao longo do texto, como o da mulher que havia escondido sua aliança de casamento em meio a suas partes íntimas alegando: “Se eles [soviéticos] chegaram até ali, o anel também não me importa mais.” O primeiro contato com os soldados soviéticos é um dos momentos mais intensos da narrativa. A imagem dos “Ivans” [denominação dada aos soldados soviéticos pelos alemães] dentro dos porões lançando a luz de suas lanternas nos rostos das mulheres ali reunidas, a procura de suas vitimas, é tão viva que temos a impressão de transitarmos entre o papel de leitor e o de expectador daquele espetáculo animalesco. Algumas mulheres preferiam acreditar que sua idade avançada lhes pouparia dos horrendos estupros coletivos, mas para os soviéticos o provérbio alemão “em caminhos muito trilhados, não cresce mais capim”, parecia não fazer muito sentido. Diante de tal quadro de desumanidade é perfeitamente compreensiva uma postura fatalista por parte dos que o presenciaram. Segundo as palavras da própria “anônima”:
“A soma das lagrimas permanece constante. Pouco importa sob que bandeiras e formulas os povos viviam; pouco importa que deuses sigam e qual o salário real que recebem, a soma das lagrimas, das dores, dos medos, com que cada um paga sua existência, permanece constante.”
Uma das questões mais complexas dos textos de caráter biográfico, ou em forma de diário como é o caso, diz respeito à fidelidade factual. Até que ponto podemos acreditar na honestidade do texto? Não pretendo, de modo algum, colocar em cheque a natureza dos crimes cometidos pelos soviéticos. Os estupros, e centenas de outros crimes bárbaros de fato acorreram, não apenas em Berlim, mas em centenas de outras cidades alemãs. A questão é que quando mergulhamos em uma obra cujos testemunhos partem de uma única fonte, inconscientemente remetemos o mesmo a uma espécie de julgamento mental que avalia a autenticidade de tais relatos. É a partir desse trabalho cognitivo, quase que involuntário, que definimos, a posteriori, todo o nosso posicionamento em relação à recepção do conteúdo de suas paginas.
Não é novidade o fato de que muitos relatos de eventos históricos, sobretudo os dramáticos, possuem uma boa parcela de inverdades, ou seja, boa parte dos testemunhos são naturalmente contrafactuais. Embora um relato possa estar em desacordo, do ponto de vista histórico, com a realidade isso não significa que, ao menos do ponto de vista pessoal, aquilo não fosse verdade. Definir uma “inverdade histórica” como uma “verdade particular” pode parecer contraditório de inicio, mas essa contradição é apenas aparente. Para quem esteve lá, naquele momento, como testemunha ocular, com os sentidos subjugados pela imprevisibilidade de uma realidade tão grotesca e anti-humana, aquele relato, por mais improvável que pareça, faz parte da sua realidade e da sua experiência. No plano cognitivo, realidade é aquilo que se sentiu, que se viveu e não que a lógica ou os registros históricos determinam como fatos.
O fluxo imposto a um destino coletivo é capaz de arrasar qualquer traço de resistência individual. O senso e a moralidade desaparecem, cedendo espaço ao puro desespero. Não cabe, portanto, ao leitor o menor traço de julgamento moral quanto ao comportamento da narradora. A este lhe cabe apenas o lugar do espectador, com sua natural impotência diante dos eventos históricos, que apesar de lamentáveis jamais devem ser esquecidos.
POR TIAGO RODRIGUES CARVALHO
UMA MULHER EM BERLIM, UMA - DIARIO DOS ULTIMOS DIAS DE GUERRA 20/04/1945 A 22/06/1945 Autor: ANONIMO Tradutor: ZWICK, RENATO Editora: RECORD Edição: 1ª Ano de Lançamento: 2008 Número de páginas: 288

domingo, 25 de agosto de 2013

Their finest hour


Íntegra do histórico discurso de Winston S. Churchill na câmara dos comuns em 18 de junho de 1940.
Falei outro dia sobre o colossal desastre militar que aconteceu quando o alto comando francês deixou de retirar da Bélgica as tropas do norte, no momento em que souberam que a frente francesa estava decisivamente esmagada no Sedan e no Mosa. O atraso acarretou a perda de 15 ou 16 divisões francesas e deixou fora de combate, por um período crítico, a totalidade da Força Expedicionária Britânica. Nosso exército e 120 mil tropas francesas foram salvos pela Marinha britânica em Dunquerque, mas somente depois que deixaram para trás canhões, veículos blindados e outros equipamentos modernos. A perda levou inevitavelmente algum tempo para ser reparada e nas primeiras duas semanas a batalha na França foi perdida. Quando consideramos a heróica resistência feita pelo Exército francês nesta batalha, contra todas as expectativas, as enormes perdas impostas sobre o adversário e a evidente exaustão do inimigo, pode-se achar que 25 divisões com treinamento e equipamento melhores poderiam ter mudado a situação. Todavia, o general Weygand teve de lutar sem isso. Apenas três divisões britânicas ou o equivalente foram capazes de se manter na linha com os camaradas franceses. Sofreram severamente, mas lutaram bem. Mandamos todos os homens que podíamos à França, tão rapidamente quanto foi possível reequiparmos e transportarmos as novas formações.
Não estou narrando estes fatos com o propósito de recriminação. Julgo isso completamente fútil e mesmo prejudicial. Não podemos nos permitir isso. Eu os relato a fim de explicar por que não tivemos, como poderíamos ter tido, entre 12 e 14 divisões britânicas lutando nesta grande batalha, em vez de apenas três. Agora deixo tudo isso de lado. Deixo na prateleira onde os historiadores, quando tiverem tempo, irão selecionar os documentos para contar suas histórias. Temos de pensar no futuro e não no passado e isso também se aplica, de alguma forma, aos nossos próprios assuntos domésticos. Há muitos que fariam um inquérito na Câmara dos Comuns sobre a conduta dos governos - e dos Parlamentos, pois eles também estão nisso - ao longo dos anos que levaram a esta catástrofe. Buscam indiciar aqueles que foram responsáveis pelo comando de nossos assuntos. Isso também seria um processo tolo e pernicioso. Há muita gente nisso. Vamos deixar que cada homem examine a sua consciência e os seus discursos. Eu examino os meus com freqüência. Tenho certeza de que, se abrirmos uma disputa entre o passado e o presente, descobriremos que perdemos o futuro. Portanto, não posso aceitar qualquer distinção entre os membros do governo atual. Este foi formado num momento de crise, a fim de unir todos os partidos e todos os segmentos de opinião. Recebeu o apoio quase unânime de ambas as Casas do Parlamento.
Os membros do governo vão permanecer unidos e, com base na autoridade da Câmara dos Comuns, vamos governar o país e lutar na guerra. É absolutamente necessário, num momento como este, que seja respeitado todo ministro que procure fazer o seu dever - e seus subordinados devem saber que seus chefes não são homens sob ameaça, que podem estar aqui hoje e não amanhã, mas são homens cujas orientações devem ser obedecidas no momento certo e de modo fiel. Sem este poder concentrado, não podemos enfrentar o que está diante de nós. Não seria muito vantajoso à Casa prolongar o debate nesta tarde, sob as atuais condições de tensão pública. Muitos fatos não estão claros, mas estarão claros no curto prazo. Vamos ter uma sessão secreta na quinta-feira e penso que esta seria uma oportunidade melhor para as muitas e respeitadas considerações que os representantes desejam fazer e para a Casa discutir assuntos vitais sem que os nossos perigosos inimigos leiam tudo nos jornais da manhã seguinte. Os desastrosos fatos militares que ocorreram durante os últimos 15 dias não chegaram a mim como surpresa. Na verdade, apontei à Casa, há duas semanas, tão claramente quanto podia, que as piores possibilidades estavam abertas - e falei perfeitamente claro naquele momento que qualquer fato que ocorresse na França não faria nenhuma diferença na determinação da Grã-Bretanha e do Império Britânico em lutar, "se necessário por anos, se necessário sozinhos". Durante os últimos dias, fomos bem-sucedidos em trazer a maior parte das tropas que tínhamos na França; e 7/8 das tropas que mandamos à França desde o início da guerra - ou seja, em torno de 350 mil de um total de 400 mil homens - estão seguros de volta a este país. Outros ainda estão lutando ao lado dos franceses e lutando com considerável sucesso nos embates contra o inimigo. Trouxemos de volta também uma grande quantidade de equipamentos, rifles e munições de toda espécie, que tinham sido reunidos na França durante os últimos nove meses. Temos, portanto, nesta ilha, hoje em dia, uma força militar grande e poderosa. Esta força compreende todas as nossas mais bem treinadas tropas, incluindo dezenas de milhares daquelas que já mediram forças com os alemães e não ficaram em nenhuma desvantagem. Temos, hoje, nesta ilha, 1.250.000 homens nas forças armadas, aproximadamente. Por trás deles, temos os voluntários da defesa local, em número de 500 mil, dos quais, no entanto, apenas uma porção já está armada com rifles ou outras armas de fogo. Nós incorporamos às nossas forças de defesa todos os homens para os quais temos uma arma. Esperamos amplos acréscimos às nossas forças em um futuro próximo e, em preparação para isso, pretendemos imediatamente convocar, organizar e treinar um número ainda maior de homens.
Aqueles que não foram convocados, estão trabalhando na vasta produção de munições, em todos os segmentos desta - e as ramificações são inumeráveis -, e irão melhor servir ao país permanecendo no trabalho até serem chamados. Temos também por aqui os exércitos dos domínios britânicos. Os canadenses, de fato, desembarcaram na França, mas já foram retirados com segurança, muito desapontados, mas em perfeita ordem, com artilharia e equipamento. E estas forças de alta qualidade provenientes dos domínios irão agora tomar parte na defesa da pátria-mãe. Temo que o relato que dei dessas forças possa levantar a questão: por que não tomaram parte na grande batalha da França? Devo deixar claro que, ao lado das divisões que estão treinando e se organizando por aqui, apenas 12 estavam equipadas para lutar de forma que justificasse mandá-las ao exterior, e este era precisamente o número que os franceses foram levados a esperar como disponíveis à França no nono mês da guerra. O restante das nossas tropas são importantes para a defesa interna, que irá se fortalecer a cada semana. Portanto, a invasão da Grã-Bretanha exigiria, neste momento, o transporte pelo mar de exércitos hostis em grande escala que, depois de assim transportados, teriam de ser continuamente mantidos com a quantidade de munições e suprimentos exigidos por uma batalha contínua - porque esta certamente seria uma batalha contínua. É aqui que chegamos à Marinha e, afinal de contas, temos uma Marinha! Algumas pessoas parecem esquecer que temos uma Marinha. Devemos lembrá-los disso. Nos últimos 30 anos, estive envolvido em discussões sobre as possibilidades de uma invasão marítima e tomei a responsabilidade, em nome do Almirantado, no começo da última guerra, de permitir que todas as tropas regulares fossem mandadas para fora do país. Aquela foi uma decisão muito séria porque nossas defesas tinham acabado de ser convocadas e estavam quase sem treinamento. Portanto, esta ilha esteve por vários meses particularmente despida de tropas. O Almirantado tinha confiança, naquele momento, na sua habilidade de evitar uma grande invasão, mesmo que os alemães tivessem uma frota magnífica de batalha, na proporção de 10 para 16, e mesmo que eles fossem capazes de lutar diariamente um conflito. Agora, eles têm apenas um par de navios pesados dignos de menção - o Scharnhorst e o Gneisenau. A nós foi dito também que a Marinha italiana irá surgir e obter superioridade nos mares. Se a Itália pretende seriamente fazê-lo, direi apenas que ficaremos encantados em oferecer ao signor Mussolini uma passagem livre e protegida pelo estreito de Gibraltar de modo que ele possa exercer o papel a que tanto aspira. Há uma curiosidade geral na frota britânica em descobrir se os italianos se mantiveram no mesmo nível em que estavam na última guerra ou se decaíram ainda mais. Portanto, no que diz respeito a uma invasão marítima em grande escala, estamos mais capacitados para enfrentá-la hoje do que estávamos em muitos momentos na última guerra e mesmo nos primeiros meses desta guerra, antes que nossas tropas estivessem treinadas e enquanto a Força Expedicionária Britânica prosseguia no exterior. Agora, a Marinha nunca pretendeu ser capaz de evitar ataques de surpresa feitos por núcleos de cinco ou dez mil homens lançados repentinamente em vários pontos da costa em uma noite escura ou em uma manhã enevoada. A eficácia do poder marítimo, especialmente sob condições modernas, depende de uma força invasora de grande porte, e esta tem de ser de grande porte, em vista da nossa força militar, para ter alguma utilidade, e sendo de grande porte, então a Marinha terá algo para achar, encontrar e, se assim for, atacar.
Devemos lembrar que cinco divisões, mesmo que ligeiramente equipadas, iriam exigir 200 a 250 navios - e, em função do reconhecimento aéreo moderno, com fotografia, não seria fácil juntar uma frota assim, organizá-la e conduzi-la pelo mar sem poderosas forças navais para acompanhá-la. Haveria amplas possibilidades, para não dizer algo pior, de que esta frota armada fosse interceptada bem antes de atingir a costa e de que todos os seus homens fossem afogados no mar ou, pior, feitos aos pedaços com seus equipamentos enquanto estivessem tentando desembarcar. Temos também um amplo sistema de campos minados, reforçado recentemente, por meio do qual só nós conhecemos as rotas. Se o inimigo tentar descobrir as passagens por meio dos campos minados, será tarefa da Marinha destruir os detectores de minas e quaisquer outras forças empregadas para protegê-los. Não deve haver nenhuma dificuldade nisso, tendo em vista nossa superioridade no mar. Estes são argumentos comuns, bem testados, bem demonstrados, com os quais temos contado durante muitos anos de paz e guerra. A pergunta é se há novos métodos pelos quais estas sólidas garantias possam ser burladas. Estranho como possa parecer, o Almirantado vem dando alguma atenção a isso, pois o seu principal dever é destruir qualquer ampla expedição marítima antes que esta atinja - ou no momento em que esta atinja - as praias. Não seria bom entrar em detalhes sobre isso. Pode sugerir a outras pessoas idéias nas quais ainda não haviam pensado, pessoas que provavelmente não nos dariam nenhuma de suas idéias em troca. Tudo o que direi é que um incansável estado de vigilância e de exercício da mente deve ser dedicado sempre a este assunto, porque o inimigo é astuto, perspicaz e cheio de artimanhas e estratagemas. A Casa pode ficar segura de que estamos trabalhando com o máximo de engenhosidade. A imaginação está sendo estimulada em um grande número de oficiais competentes, bem treinados em táticas e perfeitamente atualizados, para medir e contraproduzir novas possibilidades. Um incansável estado de vigilância e de exercício da mente está sendo, e deve ser, dedicado ao assunto porque, é bom lembrar, o inimigo é esperto e não há jogo sujo que não seja capaz de fazer. Algumas pessoas perguntarão então por que é que a Marinha britânica não foi capaz de evitar o movimento de um amplo exército da Alemanha, na Noruega, pelo Skagerrak? As condições no Canal [da Mancha] e no mar do Norte não são de modo algum como as que prevaleciam no Skagerrak. Por causa da distância, não podíamos dar suporte aéreo aos nossos navios de superfície e, conseqüentemente, ficando como ficamos próximos do principal poder aéreo inimigo, fomos compelidos a usar somente nossos submarinos. Não pudemos impor um bloqueio decisivo, possível com navios de superfície. Nossos submarinos enfrentaram perdas pesadas, mas não puderam evitar a invasão da Noruega. No Canal e no mar do Norte, por outro lado, nossas superiores forças navais de superfície, ajudadas por nossos submarinos, irão operar com ajuda aérea próxima e efetiva. Isso me traz naturalmente à importante questão da invasão pelo ar e da iminente luta entre as forças aéreas da Grã-Bretanha e da Alemanha. Parece claro que nenhuma invasão, em escala acima da capacidade de nossas forças terrestres e capaz de esmagarem-nas com rapidez, possa acontecer pelo ar até que a nossa Força Aérea tenha sido definitivamente dominada. Por enquanto, pode haver ataques com tropas de pára-quedistas e tentativas de desembarcar soldados transportados pelo ar. Nós devemos ser capazes de dar a esta turma uma recepção calorosa, tanto no ar quanto no solo, se chegarem em terra com alguma condição de continuar a disputa.
Mas a grande pergunta é: podemos destruir o poder aéreo de Hitler? É uma pena, é claro, que não tenhamos uma Força Aérea pelo menos igual à do nosso mais poderoso inimigo, ao alcance de atacar as nossas costas. Mas temos uma Força Aérea muito poderosa, que se mostrou muito superior em qualidade - seja em homens ou em máquinas - à que encontramos até agora nas numerosas e ferozes batalhas aéreas que foram lutadas contra os alemães. Na França, onde estávamos em considerável desvantagem - perdemos muitas máquinas em terra estacionadas nos aeroportos - nos familiarizamos com a imposição ao inimigo de perdas aéreas de até dois, ou dois e meio, para cada uma nossa.
Na luta em Dunquerque, que era uma espécie de terra de ninguém, batemos indubitavelmente a Força Aérea Alemã e ganhamos o domínio local dos céus, impondo dia após dia uma perda de três ou quatro para cada uma. Qualquer um que olhe as fotografias publicadas há uma semana, mais ou menos, do embarque de retorno, mostrando as tropas reunidas na praia, formando um alvo ideal por muitas horas, percebe-se que este embarque não teria sido possível a não ser que o inimigo tivesse renunciado a qualquer esperança de recuperar a superioridade aérea naquela hora e naquele lugar. Na defesa desta ilha, as vantagens para os defensores serão muito maiores do que na luta em torno de Dunquerque. Esperamos melhorar a taxa de três ou quatro perdas para cada uma nossa que foi conseguida em Dunquerque. Além disso, todas as nossas máquinas danificadas e suas tripulações, que puderam pousar com segurança - e, surpreendentemente, uma boa parte das máquinas danificadas e das tripulações atacadas pousam com segurança nos combates aéreos modernos -, todas irão cair, num ataque contra estas ilhas, em solo amigo e viverão para combater no outro dia, ao passo que as máquinas danificadas do inimigo serão perdas totais na guerra.
Durante a grande batalha na França, demos uma ajuda intensa e contínua ao Exército francês, tanto com aviões quanto com bombardeiros. Mas, a despeito de todo o tipo de pressão, jamais permitiríamos que toda a força metropolitana de combate da Força Aérea fosse consumida. Foi uma decisão dolorosa, mas correta, porque o destino da batalha da França não poderia ter sido influenciado, mesmo se tivéssemos colocado lá nossa força completa de aviões de guerra. Aquela batalha foi perdida pela desgraçada estratégia [alemã] inicial, que tinha por base o extraordinário e imprevisto poder das colunas blindadas e a grande preponderância do Exército germânico em números. Nossos aviões de guerra poderiam ter sido desperdiçados como um mero acidente naquela grande disputa - e então nós nos descobriríamos no momento em apuros muito sérios. Assim como está, estou contente de informar à Casa que o nosso poder de combate aéreo é mais forte, no presente, em comparação ao dos alemães, que sofreram perdas terríveis, mais do que jamais tiveram. Conseqüentemente, acreditamos sermos detentores da capacidade de continuar a guerra nos céus sob melhores condições do que as que experimentamos antes. Aguardo com confiança pelas proezas de nossos pilotos - estes homens esplendidos, esta juventude brilhante -, que terão a glória de salvar a terra natal, a ilha onde moram e tudo o que amam, do mais mortal de todos os ataques. Resta, é claro, o perigo de ataques com bombas, os quais certamente serão feitos em breve pelos bombardeiros inimigos. É verdade que a força germânica de bombardeiros é superior em número à nossa, mas temos também uma grande força de bombardeiros que usaremos para atacar, sem trégua, alvos militares na Alemanha. Não subestimo de modo algum a severidade do desafio que a nós se apresenta, mas acredito que nossos compatriotas vão se mostrar capazes de enfrentá-lo, como fizeram os bravos homens de Barcelona. Serão capazes de enfrentá-lo e seguir em frente, a despeito disso, tão bem quanto qualquer outra pessoa no mundo. Muita coisa estará em jogo. Todos os homens e mulheres terão a chance de exibir as melhores qualidades de suas raças e prestar os mais altos serviços às suas causas. Para todos nós nesta hora, qualquer que seja nossa situação social, nossa posição, nossa ocupação ou nossos deveres, será uma ajuda lembrar os famosos versos:
"Ele não fez nem quis dizer nada comum, Diante daquela cena memorável"
Achei que era certo, nesta ocasião, dar à Casa e ao país alguma indicação a respeito dos fundamentos sólidos e práticos sobre os quais baseamos nossa inflexível determinação para continuar a guerra. Há gente muita boa que diz: "Não interessa. Vencer ou perder, afundar ou nadar, é melhor morrer do que se submeter à tirania - e que tirania". Não me dissocio deles. Mas, posso assegurá-los de que profissionais das três forças armadas recomendaram em conjunto que devemos continuar a guerra e que há, no fim, esperanças boas e razoáveis de vitória.
Temos informado e consultado todos os governos autônomos dos domínios britânicos, estas grandes comunidades, bem além dos oceanos, que foram construídas a partir das nossas leis e da nossa civilização. Eles estão completamente livres para escolher o seu caminho, mas estão completamente devotados também à antiga terra-mãe e se sentem inspirados pelas mesmas emoções que me fazem apostar tudo no dever e na honra. Nós os consultamos plenamente e recebi dos primeiros-ministros, Mackenzie King do Canadá, Menzies da Austrália, Fraser da Nova Zelândia e do general Smuts da África do Sul - aquele homem maravilhoso com a sua imensa e profunda inteligência e olhos capazes de analisar à distância todo o panorama dos assuntos europeus -, recebi de todos estes homens eminentes - todos representantes de governos eleitos, com votações amplas e que estão lá porque representam a vontade de seus povos, mensagens formuladas em termos comoventes, nas quais endossaram a nossa decisão de lutar e se declaram prontos a partilhar o nosso destino e perseverar até o fim, e é isso o que vamos fazer. Podemos perguntar a nós mesmos: de que maneira nossa posição piorou desde o início da guerra? Piorou pelo fato de que os alemães conquistaram grande parte da costa da Europa ocidental e muitos países pequenos foram invadidos por eles. Isto agrava as possibilidades de um ataque aéreo e soma-se às nossas preocupações navais. Isso não diminui de modo algum - pelo contrário, definitivamente aumenta - o poder do nosso cerco de longa distância. De modo semelhante, a entrada da Itália na guerra também aumenta o poder do nosso cerco de longa distância. Nós temos impedido, com isso, os piores furos. Não sabemos se a resistência militar vai durar na França, mas, se isso acontecer, então naturalmente os alemães serão capazes de concentrar as suas forças, tanto militares quanto industriais, sobre nós. Porém, pelas razões que mostrei à Casa, essas forças não serão fáceis de ser empregadas. Se a invasão, por um lado, se tornou mais iminente, por outro, nós, ao ficarmos isentos da tarefa de manter um grande exército na França, passamos a ter forças mais numerosas e mais eficientes para enfrentar os alemães. Se Hitler puder trazer para o seu despótico controle as indústrias dos países que conquistou, isso vai se somar à sua já vasta produção de armamentos. Por outro lado, não ocorrerá imediatamente e nós estamos, neste momento, seguros do apoio intenso, contínuo e crescente dos Estados Unidos - com suprimentos e todo o tipo de munição - e, especialmente, com aviões e pilotos dos domínios britânicos, que cruzam os oceanos provenientes de regiões fora do alcance dos bombardeiros inimigos.
Não vejo como qualquer um destes fatores possa agir em nosso prejuízo antes da vinda do inverno. E o inverno vai impor pressões sobre o regime nazista, com toda a Europa padecendo e passando fome sob sua cruel dominação, o que vai afetá-lo duramente, mesmo com toda a sua brutalidade. Não podemos esquecer que, desde o momento em que declaramos a guerra, em 3 de setembro, sempre tem sido possível à Alemanha atirar toda a sua Força Aérea contra este país juntamente com outros mecanismos de invasão que pudesse conceber - e a França poderia ter feito pouco ou nada para evitar que isso acontecesse. Nós temos, portanto, convivido com o perigo desde o princípio e em formas sutilmente diferentes durante todos estes meses. Neste período, porém, melhoramos enormemente nossos métodos de defesa e aprendemos algo que não tínhamos como imaginar no começo, ou seja, que o avião e o piloto britânicos têm uma superioridade certa e definida. Portanto, ao analisar este alarmante balanço e ao contemplar nossos perigos com um olhar verdadeiro, vejo muitas razões para intensa vigilância e esforço, mas nenhuma razão para pânico ou desespero.
Durante os primeiros quatro anos da última guerra, os aliados experimentaram somente o desastre e o desapontamento. Este era o nosso medo constante: um golpe depois do outro, perdas terríveis, perigos horrendos. Tudo desandou. E, mesmo assim, ao fim daqueles quatro anos, a moral dos aliados estava mais alta do que a dos alemães, que iam de um rompante agressivo para o outro, que em todos os lugares posavam de invasores triunfantes das terras que haviam violado. Durante aquela guerra, nós nos perguntávamos repetidas vezes: como vamos vencer? Ninguém era capaz de responder com muita precisão, até que, no fim, quase repentinamente, quase inesperadamente, nosso terrível inimigo desmoronou à nossa frente, e ficamos tão saturados com a vitória que, em nossa estupidez, a jogamos fora.
Ainda não sabemos o que vai acontecer na França, ou se a resistência será prolongada, tanto na França quanto no Império francês além-mar. O governo francês estará desperdiçando grandes oportunidades e expondo o seu futuro ao acaso se não continuar a guerra, de acordo com as suas obrigações no tratado pelo qual não nos sentimos capazes de liberá-los. A Casa virá a ler a histórica declaração na qual, com o desejo de muitos franceses - e de nossos próprios corações -, proclamamos a nossa vontade, no momento mais negro da história francesa, de concluir uma união comum de cidadãos neste combate. Como quer que os assuntos caminhem na França ou com o governo francês, ou com outros governos franceses, nesta ilha e no Império Britânico nunca perderemos o nosso senso de camaradagem para com o povo francês. Se formos agora convocados para suportar o que eles têm sofrido, vamos imitar a sua coragem, e se a vitória final recompensar os nossos sacrifícios, eles irão partilhar os ganhos, sim, e a liberdade será restaurada para todos. Nós não diminuímos nada das nossas justas demandas, não vamos recuar nem sequer um rabisco ou um traço. Tchecos, poloneses, noruegueses, holandeses e belgas juntaram as suas causas à nossa. Todos serão recompensados.
Aquilo que o general Weygand chamou de "a batalha da França" acabou. A "batalha da Grã-Bretanha" está para começar. Desta batalha depende a sobrevivência da civilização cristã. Dela depende a própria vida britânica e a continuidade de nossas instituições e de nosso império. Toda a fúria e o poder do inimigo devem muito em breve se virar contra nós. Hitler sabe que terá de nos fazer sucumbir nesta ilha ou perder a guerra. Se nós pudermos enfrentá-lo, toda a Europa poderá ser livre e a vida do mundo poderá continuar na direção de campos amplos e ensolarados. Mas, se nós falharmos, o mundo inteiro - inclusive os Estados Unidos, inclusive todos os que conhecemos e com quem nos importamos - irá afundar no abismo de uma nova era de trevas, tornada mais sinistra e talvez mais prolongada, pelas luzes da ciência pervertida. Vamos, portanto, nos unir em torno de nossos deveres. E saber que, se o Império Britânico e a Comunidade dos Estados Britânicos durarem mil anos, os homens ainda dirão: "Este foi o seu melhor momento".
Fonte deste artigo: Churchill, Winston S. Jamais Ceder!. Jorge Zahar Editor.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A IMPORTANCIA DO LEND-LEASE

O chamado Lend-Lease Act foi aprovado pelo Congresso americano em 11 de março de 1941 e consistiu num programa de empréstimos para abastecer com alimentos e armamentos as nações que estavam em guerra e que a defesa era considerada vital para os EUA. A URSS recebeu dos EUA, a partir de 1942, 427.284 caminhões, 50.000 jipes, 35.000 motocicletas, 7.600 motores a Diesel, 3.000.000 Pneumáticos, 14.800 aviões, 135.000 metralhadoras, 301 lanchas, 415.000 aparelhos telefônicos, 11.159 vagões, 2.000 locomotivas, 90 barcos mercantes, 15.000.000 de pares de botas, 13.304 veículos blindados, 8.200 canhões, 345.735 toneladas de explosivos e 4.500.000 toneladas de alimentos.

Os números do Lend-Lease são impressionantes, mas seria correto dizer que sem essa ajuda a URSS não teria conseguido suportar o ataque da maquina de guerra nazista? Será que o Lend-Lease salvou a União Soviética da derrota? O exame dos fatos incita responder pela negativa. Basta analisar o numero de perdas e da produção soviética dos anos de 1941,1942 e 1943 para concluir que o Lend-Lease não foi algo que salvou a URSS e muito menos que evitou sua derrota.

(1941)
No dia 22 de junho de 1941, a URSS possuía um total de 22.600 tanques, dos quais 14.200 estavam na linha de frente; alem de 76.500 canhões (acima de 50 mm) e 20.000 aeronaves.

A produção industrial soviética, de todo o ano de 1941 foi de:
- 1.760.000 Rifles
- 4.700 Tanques
- 53.600 Canhões
- 8.200 aviões

As perdas soviéticas de todo o ano de 1941 foram de:
- 20.500 tanques (representando 72% do total)
- 63.100 canhões (representando 59% do total)
- 17.900 aeronaves (representando 34% do total)

(1942)
No dia 1 de janeiro de 1942, a URSS possuía um total de 7.700 tanques, dos quais 2.200 estavam na linha de frente; alem de 48.600 canhões e 12.000 aviões.

A produção industrial de todo o ano de 1942 foi de:
- 5.910.000 Rifles
- 24.500 tanques
- 287.000 canhões
- 21.700 aviões

As perdas soviéticas de todo o ano de 1942 foram de:
- 15.100 tanques (representando 42% do total)
- 70.300 canhões (representando 32% do total)
- 12.100 aviões (representando 22% do total)

(1943)
Em 1 de janeiro de 1943 a URSS possuía 20.600 tanques, dos quais 8.100 estavam na linha de frente, 161.600 canhões, 21.900 aviões.

A produção industrial soviética, de todo o ano de 1943 foi de:
- 5.920.000 Rifles
- 24.100 Tanques
- 126.000 Canhões
- 29.900 aviões

As perdas soviéticas de todo o ano de 1943 foram de:
- 23.500 tanques (representando 49% do total)
- 25.300 canhões (representando 9% do total)
- 22.500 aviões (representando 20% do total)

Em momento algum, os números mostram que a produção soviética foi incapaz de repor as perdas e inclusive de expandir o tamanho dos seus efetivos. O momento que representou o maior numero de perdas e uma pequena taxa de produtividade foi no ano de 1941, quando a União Soviética perdeu 72% de seus blindados, 59% de todos os canhões e 34% de suas aeronaves. Esse foi o momento que a União Soviética mais esteve perto de um colapso e que, portanto, mais precisou de ajuda. Nesse momento crucial, nenhuma ajuda foi enviada a URSS.

No inicio de 1942, todas as indústrias transferidas para o leste (226 para a região do Volga, 667 para a região dos Urais, 224 para a Sibéria ocidental, 78 para a Sibéria Oriental e 308 para a Ásia Central) já estavam produzindo normalmente. O Lend-Lease foi significativo para manter a mobilidade do Exercito Vermelho durante as gigantescas operações ofensivas de 1944 e 1945, mas não foi determinante para a incrível resistência do povo russo, durante as batalhas mais terríveis de 1941 e 1942.

AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA
- Confronto de Titãs, como o exercito Vermelho deteve Hitler - john Lewis Gadis
- Um Stalin desconhecido - Zhores A. Medvedev
- Moscou 1941 uma cidade e seu povo na guerra - Rodric Brentware
- Barbarossa a invasão da URSS - John Keegan
- A defesa de Moscou - Geofrey Junkes

terça-feira, 8 de junho de 2010

OFENSIVA FINAL DA WEHRMACHT NA CRIMEIA

Campanha da Criméia
Conquista de Sebastopol
Batalha de Karkov


Fins de janeiro de 1942. Sobre a superfície gelada do estreito de Kertsch, marcham rumo ao oeste milhares de soldados soviéticos. Uma após outra, as intermináveis colunas alcançaram as costas da Criméia. Atrás deles avançam lentamente, através dos sulcos abertos na neve, centenas e centenas de tanques, caminhões e peças de artilharia puxadas por tratores e cavalos. Essa gigantesca concentração de homens e de material foi determinada pelo próprio Stalin. Sua missão: reconquistar a Criméia e aniquilar o 11o Exército alemão, cujas forças estão empenhadas no bloqueio de Sebastopol.


O General Von Manstein, Chefe do 11o Exército, prepara-se para conter o ataque. Na estreita faixa que dá acesso à península de Kertsch, coloca três divisões de infantaria alemã e uma coluna romena, e dispõe, na retaguarda, seu único regimento de reserva. Com essa débil força terá que bloquear o ataque de 14 divisões de infantaria, uma de cavalaria, e duas brigadas de tanques soviéticos. A oeste, em redor de Sebastopol, o restante de suas unidades (4 divisões alemães e uma brigada romena), dispõe-se a impedir a saída das sete divisões russas que integram a guarnição da fortaleza. Em toda a Criméia os alemães contam nesse momento, com apenas 60 aviões de combate.

A 27 de fevereiro, e depois de longos preparativos, os soviéticos desencadeiam a ofensiva. Apoiados pela artilharia pesada da fortaleza, as tropas de Sebastopol arremetem contra as divisões 22a e 24a alemães, com a intenção de romper para o norte o anel do bloqueio. Os soldados alemães, combatendo furiosamente, conseguem rechaçar o ataque e manter suas posições, embora às custas de terríveis perdas. A luta se estende ao longo de todo o perímetro de Sebastopol, porém as unidades alemães e romenas mantêm obstinadamente o sítio.

Na península de Kertsch, os russos lançaram ao ataque uma primeira leva de sete divisões de infantaria e 2 brigadas de tanques, mantendo em reserva o restante de suas forças. Entrincheirados no terreno pantanoso, os alemães contiveram a investida, mas no seu flanco norte os russos superaram a 18a Divisão romena e aniquilaram os destacamentos de artilharia alemães, sediados na retaguarda. Rapidamente, Von Manstein ordenou que se fechasse a brecha, mas as tropas enviadas não conseguiram locomover-se com suficiente velocidade, o que permitiu aos soviéticos aprofundar seu avanço. Ficou, portanto desarticulada a frente de combate alemã diante da península de Kertsch.

Fracassa o ataque soviético

Ante a grave ameaça que pairava sobre suas forças, Von Manstein ordenou realizar um esforço desesperado para conter a penetração russa. Tropas enviadas dos serviços de retaguarda se somaram na luta e, em ininterruptos e violentos combates, conseguiram finalmente bloquear a brecha no flanco norte. Os sangrentos choques continuaram até 3 de março, dia em que ambos os lados, esgotados pelas terríveis baixas sofridas, interromperam suas operações. Sobreveio então uma pausa que se prolongou por 10 dias.

Na madrugada de 13 de março, os russos se lançaram novamente ao ataque, empregando oito divisões de infantaria e duas de tanques. Os alemães, no entanto conseguiram outra vez rechaçá-los. Fazendo fogo sem interrupção, suas baterias dizimaram as formações blindadas russas e, apenas nos três primeiros dias de luta destruíram 136 tanques. Os russos, porém não diminuíram seus obstinados ataques. No dia 18 já haviam conseguido esgotar a capacidade combativa das formações alemães. Nesse momento crítico, Von Manstein recebeu como reforço a 22a Divisão Panzer cujos tanques entraram imediatamente na luta.



Sobrepujando o esgotamento, as forças alemães iniciaram a 20 de março um contra-ataque, apoiados pelos Panzer. A operação fracassou, mas, contudo, causou aos russos muitas perdas e os obrigou a interromper seu avanço.

Com sua característica tenacidade, os russos empreenderam um novo ataque, desta vez com quatro divisões. Uma vez mais foram rechaçados, depois de duros combates. Os alemães agora contavam com o apoio de outra divisão de infantaria, o que lhes permitiu, no decorrer de uma última e cruenta batalha que se prolongou de 9 até 11 de abril, quebrar definitivamente a potência ofensiva dos russos. Von Manstein considerou então que era chegado o momento de desencadear um ataque geral, destinado a aniquilar os exércitos russos que se haviam localizado na península de Kertsch.

Vitória alemã

Enquanto ocorriam estes acontecimentos, Hitler terminava os planos para a grande ofensiva contra Stalingrado e o Cáucaso. Esta operação devia ser precedida pela destruição de todas as forças da Criméia e a ocupação da fortaleza de Sebastopol. Cumprindo essa diretiva, o 11o Exército alemão preparou-se para levar adiante o ataque contra Kertsch.

Em fins de abril de 1942, os russos contavam na península com dois exércitos, o 44o e o 51o, com 17 divisões de infantaria, duas de cavalaria e quatro brigadas blindadas. A essa força os alemães podiam opor apenas 5 divisões de infantaria, uma Panzer; duas divisões de infantaria e uma de cavalaria, romenas. Apesar de sua inferioridade numérica, os alemães contavam com a vantagem de operar numa frente muito estreita (o acesso à península tinha apenas uma extensão de 18 km), o que lhes permitiria arremeter com suas forças em massa contra um reduzido setor das posições russas. Os soviéticos, por sua vez, haviam concentrado dois terços de suas unidades no flanco norte, situando no sul apenas 3 divisões na primeira linha e duas em reserva.




Von Manstein vislumbrou imediatamente as vantagens que essa distribuição dos efetivos soviéticos lhe oferecia. Decidiu, portanto, irromper pelo sul com 3 divisões de infantaria e a divisão panzer, realizando, simultaneamente, um ataque simulado no centro com as restantes forças alemães e romenas. Um grupamento de forças mecanizadas avançaria em linha reta, uma vez obtida a ruptura, até ocupar o porto de Kertsch, no extremo oriental da península. Ficaria assim cortada totalmente a retirada aos russos que, inesperadamente, estariam cercados pelas costas pelos tanques e infantaria alemães. Para apoiar a ofensiva o Alto-Comando alemão destacou na Criméia o 8o Corpo Aéreo do General Richtofen. Na manhã de 8 de maio as tropas de von Manstein iniciaram o ataque. Grupos de assalto conduzidos em botes e lanchas desembarcaram na retaguarda das posições russas e facilitaram a penetração das unidades de choque através das fossas antitanques que guarneciam a frente. Sustentando duros combates com os infantes soviéticos, os alemães abriram passagem através da barreira defensiva, para a invasão dos tanques. No dia seguinte, a 22a Divisão Panzer já havia transposto a linha fortificada e se encontrava em condições de iniciar o avanço para o norte, a fim de envolver pela retaguarda o grosso das forças russas. Os soviéticos, vislumbrando a ameaça que pairava sobre eles, desfecharam uma série de violentos contra-ataques, utilizando grande massa de tanques blindados. Durante 24 horas, a penetração alemã ficou paralisada, e fortes chuvas impediram a intervenção dos Stukas. Na tarde do dia 10, o céu se desanuviou, e os Panzer retomaram o avanço. Simultaneamente, a brigada mecanizada encarregada de ocupar o porto de Kertsch movimentou-se a toda velocidade para o leste, sem encontrar maior oposição. A 11 de maio, os tanques alemães alcançaram a costa norte da península e surpreenderam oito divisões russas. Todas as forças alemães e romenas arremeteram então contra as unidades cercadas e, depois de exterminá-las, marcharam rumo ao extremo oriental da península. A 12 de maio foi ocupado o porto de Kertsch. Milhares de russos recuaram para as praias e continuaram, ali, oferecendo desesperada resistência, sob o fogo implacável da artilharia alemã e das bombas dos Stukas. A luta terminou, finalmente, a 18 de maio. A derrota soviética era total. Mais de 170.000 soldados, 1.100 canhões e 258 tanques constituíram o saldo do triunfo alemão.

Organiza-se o ataque contra Sebastopol

Desde meados do mês de abril de 1942 - antes do ataque contra Kertsch - von Manstein havia ultimado o plano para a conquista de Sebastopol. Apresentou seu projeto a Hitler, que lhe deu imediata aprovação. O chefe alemão se propunha a realizar a investida principal pelo norte, pois ali o terreno era mais favorável, apesar de estar defendido pelos principais redutos da fortaleza. Pelo leste e pelo sul, existiam agrestes maciços rochosos que tornariam sumamente difícil o avanço da infantaria.

No ataque norte, interviria o 54o Corpo de Exército com 4 divisões de infantaria e um regimento reforçado, apoiados pelo grosso da artilharia pesada e superpesada (entre as peças se contava o gigantesco canhão Dora de calibre de 80 cm). Pelo sul avançaria o 30o Corpo de Exército com 3 divisões de infantaria. O corpo de montanha romeno, com duas divisões, atacaria os russos pelo leste, e cobriria os flancos das unidades de assalto alemães, tornando-os mais eficientes.

Para facilitar a ação das forças de infantaria, o Alto-Comando alemão concentrou, diante da fortaleza de Sebastopol, mais de 600 peças de artilharia e numerosas baterias de morteiros. O 8o Corpo Aéreo, com cerca de 400 aviões, recebeu a missão de arrasar o porto de Sebastopol e bombardear os redutos e posições fortificadas. Os canhões e Stukas iniciaram o fogo cinco dias antes da data fixada para o ataque das tropas.

Nos últimos dias de preparação do ataque, o General Von Manstein transladou-se a frente sul, a fim de inspecionar o terreno onde teria de operar o 30o Corpo de Exército. Essa visita quase lhe custou a vida. A bordo de uma lancha-torpedeira italiana, o chefe alemão percorria a costa nas vizinhanças do porto de Yalta, quando, de surpresa, a embarcação foi atacada por aviões russos. Em poucos instantes, as balas dos caças mataram e feriram 16 tripulantes. Manstein, milagrosamente, escapou ileso.

A 7 de junho de 1942, iniciou-se a luta pela conquista de Sebastopol. Quando os primeiros raios de sol iluminaram a frente de batalha, a artilharia alemã abriu um fogo infernal sobre as posições russas. Com surdo rugido, os gigantescos canhões descarregaram seus projéteis e os Stukas, precipitando-se do céu, lançaram bomba após bomba sobre os redutos e trincheiras. Todo o perímetro da fortaleza ficou envolvido por uma nuvem de fumaça e pó provocada pelas incessantes explosões.

Penetração no norte

A uma ordem de comando de seus oficiais, os soldados empunham seus fuzis com a baioneta calada e se lançam ao ataque contra as trincheiras soviéticas. Os sapadores, na noite anterior, abriram picadas através dos campos minados e por elas irromperam os pelotões de assalto. Muitos soldados tombaram, entretanto, atingidos pela metralha russa. Alguns homens adiantam-se e lançam granadas contra as casamatas que bloqueiam o avanço. Outros, com o joelho em terra, disparam seus fuzis e metralhadoras portáteis contra as frestas que servem de visores, imobilizado os defensores. O fragor dos disparos e explosões é ensurdecedor. A resistência cessa e o ataque prossegue.

Assim, ao longo de toda a frente norte, os infantes alemães abrem passagem, arrasando, à custa de sangrentas perdas, a desesperada resistência dos russos. Estes combatem com fúria implacável, e, mesmo feridos, continuam disparando suas armas. Poucos são os que caem prisioneiros, e, ao serem evacuados para a retaguarda, apoderam-se de súbito dos fuzis que, às centenas, jazem esparramados pelo terreno, e lutam novamente com fanatismo e decisão. Palmo a palmo, os alemães conquistam o terreno. Cada trincheira, cada reduto, se converte em palco de encarniçados choques corpo a corpo. Dessa maneira, com terrível violência, luta-se durante 6 dias. Finalmente, as tropas de vanguarda da 22a Divisão de Infantaria alcançam a rampa do forte Stalin. A 13 de junho, os soldados alemães, apoiados pelo fogo dos canhões e dos morteiros, se apoderam do reduto. Outros importantes pontos fortificados, batizados pelos alemães de Tcheca, Sibéria, Volga e GPU, são também conquistados. Dessa forma, fica aberta uma profunda cunha no cinturão defensivo ao norte de Sebastopol.




Também ao sul, o 30o Corpo de Exército conseguiu irromper no perímetro, apesar de sofrer grandes baixas. Entrincheirados nos redutos e em buracos abertos na rocha, os russos varrem com o fogo de suas metralhadoras e morteiros as colunas de soldados alemães e romenos, que escalam penosamente as escarpas inclinadas. Não conseguem, no entanto, deter o avanço.

Na frente norte, a 24a Divisão de Infantaria alemã, desloca-se em torno do forte Máximo Gorki I. Acontece ali uma violenta batalha, que, com o correr das horas aumenta em intensidade. As baterias pesadas alemães fazem alvo direto sobre as torres artilhadas e silenciam os canhões russos.

Mais para o sul, no extremo da península que domina a entrada da baía de Sewernaja - braço de mar de 800 metros de largura que se estende diante do porto de Sebastopol - a 22a Divisão de Infantaria apodera-se, depois de duro combate, do Forte Norte, último reduto importante que restava aos russos. Os infantes alemães prosseguiram então seu avanço até chegar à crista do escarpado barranco que se levanta junto à costa. Ao pé desse barranco. Em seis profundas galerias, escavadas 100 metros abaixo da rocha, milhares de soldados e civis russos buscaram refúgio, e prosseguiam resistindo furiosamente.

Ao enfrentarem essa inesperada oposição, os alemães, movimentando-se sobre o barranco, arrojaram granadas e explosivos para o interior dos túneis. As explosões se sucederam com infernal seqüência, desprendendo grandes blocos de rochas e levantando nuvens de poeira e fumaça. No entanto, os russos não cederam e continuaram disparando do interior dos abrigos, com suas metralhadoras e fuzis. Amarrado à extremidade de uma corda, um sapador alemão levando uma carga explosiva, conseguiu descer até a entrada de uma das cavernas. Nesse preciso instante uma terrível detonação sacudiu o terreno. Os russos acabavam de dinamitar a galeria! Mais de 1.400 civis e toda a guarnição preferiram morrer enterradas antes de entregar-se aos alemães. Durante essa mesma jornada, os outros cinco refúgios capitularam depois de bombardeados a queima-roupa por um canhão alemão, com auto-propulsão, que conseguira descer até o estreito caminho que corria ao pé do barranco. Toda a costa norte da baía de Sewernaja caiu assim nas mãos dos alemães. Estes, no entanto, tiveram que pagar um preço terrível pelo terreno conquistado. Os regimentos de assalto estavam reduzidos à oitava parte e possuíam apenas algumas centenas de soldados em condições de lutar.

Ataque através da baía

Do alto do barranco, o General Von Manstein inspeciona com seus binóculos a agreste costa que se levanta do outro lado da baía de Sewernaja. O chefe alemão continuou o ataque a Sebastopol mediante uma audaciosa operação. Suas forças, esgotadas pela sangrenta luta, não estão em condições de arremeter contra as fortificações que, por terra, rodeiam a cidade. Decide, portanto, deslocar inesperadamente as tropas das 22a e 24a divisões de infantaria, através das águas da baía, em uma flotilha de lanchas de assalto, e desembarcá-las na retaguarda da linha de redutos que defendem Sebastopol. O temerário plano de Manstein não foi bem recebido por seus oficiais auxiliares. A empresa comporta graves riscos, pois os soldados alemães terão que cruzar a baía sob o fogo da artilharia e das metralhadoras russas e escalar rapidamente as inclinadas escarpas da costa. Contudo, o fator surpresa concorre em favor do projeto. Os russos, sem dúvida, não esperam um ataque por esse lado e concentraram a quase totalidade de suas forças nas posições fortificadas, que encaram da terra, o leste e o sul. Von Manstein, portanto, decide passar por cima das críticas dos seus subordinados e levar adiante a ação.




Uma vez recebida a ordem, as tropas de assalto trabalham ativamente na preparação do ataque. No alto do barranco colocam-se canhões e metralhadoras com a missão de atingir os redutos russos, no outro lado da baía. Amparadas pela obscuridade, as lanchas, providas de poderosos motores de popa, são lançadas à água, e os homens se instalam a bordo com suas armas e equipamentos. Exatamente à 1h50 da madrugada de 29 de junho de 1942, a artilharia abre fogo, e as lanchas partem à toda velocidade, rumo à costa inimiga. Nesse preciso momento, os Stukas atacam Sebastopol, com o fim de ocultar, com o estampido de suas bombas, o ruído dos barcos que sulcam as águas da baía.

Doze minutos depois, os primeiros soldados alemães, desembarcam na margem oposta e atacam os reduzidos destacamentos russos que montam guarda nos rochedos escarpados. A surpresa foi total! Sem perder um instante, os pelotões de assalto escalam, valendo-se de cordas, os altos rochedos e cruzam o aterro da estrada de ferro, que corre paralela à costa. Logo, novos contingentes chegam nas lanchas e se juntam ao avanço. Grupos isolados de soldados russos tentam oferecer resistência e são rapidamente aniquilados.

Ao clarear o dia, a luta adquire extraordinária violência. Num túnel ferroviário, um destacamento russo, abrigado, prossegue combatendo encarniçadamente. Repetidas vezes são intimados a depor as armas, porém não acatam o ultimato e descarregam um fogo mortífero sobre os infantes alemães que se aproximam da boca da galeria. Os alemães finalmente, tapam a entrada com escombros e lançam granadas e explosivos pelos tubos de ventilação. Somente assim, com métodos radicais, conseguem forçar os russos a abandonar o reduto. Retiram-se então os obstáculos, e começam a sair semi-asfixiados e quase cegos os 500 soldados que sobreviveram ao ataque. Depois deles surgem, arrastando-se penosamente, algumas mulheres e crianças que compartilharam com os homens as terríveis alternativas do combate.

A conquista de Sebastopol

Enquanto as tropas que desembarcaram na costa norte prosseguem sua penetração rumo a Sebastopol, no leste de no sul o corpo de montanha romeno e o 30o Corpo de Exército alemão, lançam-se ao assalto contra o perímetro fortificado, e numa série de rudes combates conseguem abrir uma brecha. Continuam as esquadrilhas de Stukas lançando do céu uma chuva ininterrupta de bombas, e a artilharia atacando com seu fogo demolidor. Durante os dias 29 e 30 de junho luta-se com fúria desesperada em torno de Sebastopol. Russos e alemães protagonizam episódios de incrível heroísmo. Submergidos nessa batalha infernal, os soldados de ambos os lados tombam aos milhares, regando com o sangue o terreno, esburacado pelos projéteis.

As divisões alemães, esmagando a resistência dos russos, convergem inexoravelmente para o porto. Um depois de outro, caem em seu poder os pontos fortificados, onde os russos se fazem matar até o último homem. Pelo sul, a 28a Divisão alemã irrompe através do cinturão defensivo e alcança o Cemitério Inglês, onde repousam os restos dos soldados britânicos mortos na guerra da Criméia de 1854. Nesse local se trava um renhido combate. Atingidos pelas bombas e projéteis da artilharia, os velhos sepulcros de mármore voam aos pedaços pelos ares. Soviéticos e alemães lutam sem piedade corpo a corpo, entre os escombros, arremetendo com granadas de mão e a ponta de baioneta.



Outras duas divisões alemães deslocam-se mais ao sul, e depois de apoderar-se do porto de Balaklava, na costa do mar Negro, marcham em direção à península de Quersoneso, para onde se dirigem em desordenada retirada milhares de soldados, marinheiros e civis russos que conseguiram escapar de Sebastopol. Nessa estreita faixa de terra, os russos se dispõem a levantar a última linha de resistência, na esperança de poderem ser resgatados por mar, pela esquadra vermelha.

Sebastopol encontra-se agora rodeada pelos alemães, e entre suas ruínas os soldados russos se preparam para enfrentar o inevitável ataque. Diante da perspectiva de ter de travar uma feroz luta de ruas, von Manstein resolve - antes de enviar ao assalto as extenuadas unidades de infantaria - realizar um bombardeio devastador com a aviação e a artilharia. A 1o de julho os canhões e gigantescos obuses desataram um fogo infernal sobre Sebastopol. Atacando sem trégua, os Stukas arrasaram por completo os últimos focos de resistência que ainda se mantinham em pé, enquanto os caças, em vôo rasante, metralhavam os soldados russos dispersos entre os escombros. Poucas horas depois, penetraram na cidade os primeiros pelotões de exploração alemães, e comprovaram que a guarnição havia sido praticamente exterminada. Ao cair da noite, Sebastopol inteira estava nas mãos da Wehrmacht.

A luta, no entanto não havia terminado. Na península de Quersoneso, os restos dos exércitos russos protagonizavam o dramático e espantoso final de batalha. Milhares de soldados e civis, precedidos por meninos e meninas armados unicamente com baionetas, lançaram-se em formação cerrada contra as linhas alemães, numa desesperada tentativa de abrir passagem em direção aos montes Jaila. Atingida pelo fogo das metralhadoras e morteiros, a maior parte foi exterminada. Apenas alguns poucos caíram prisioneiros. Na ponta da península, entrincheirados nas cavernas e reentrâncias das rochas, os últimos contingentes russos se defenderam tenazmente durante mais três dias. Finalmente, a 4 de julho a luta terminou.

Derrota soviética em Karkov

Enquanto o 11o Exército de Manstein estava empenhado na conquista da Criméia, ao norte, as forças russas, comandadas pelo Marechal Timoshenko se lançaram ao ataque em torno de Karkov, com a intenção de liberar esta cidade e simultaneamente infligir pesadas baixas às unidades da Wehrmacht ali sediadas. A ofensiva iniciou-se no dia 12 de maio de 1942, em forma de ataque concêntrico, sobre ambos os flancos da cidade.

Os russos movimentaram o grosso de suas forças pelo sul e conseguiram abrir uma profunda brecha no ponto de contato entre o 6o Exército do General Paulus e o Grupamento Panzer de Von Kleist. Ao norte, as unidades de assalto soviéticas foram contidas a duras penas pelos alemães, nas cercanias de Karkov, no transcurso de uma série de violentos combates, que se desenvolveram entre os dias 14 e 16 de maio. Recorrendo às suas últimas reservas, o 6o Exército alemão conseguiu parar a arremetida sobre a cidade. No setor sul porém, os exércitos russos apoiados por poderosas formações blindadas, aprofundaram sua penetração, criando uma grave ameaça para as linhas da retaguarda alemã.

Nessa circunstância crítica, o Grupamento Panzer de Kleist realizou um surpreendente e devastador contra-ataque sobre o flanco esquerdo da cunha aberta pelos russos.
A partir do dia 17, onze divisões alemães e duas romenas pressionaram para o norte, e conseguiram ganhar terreno rapidamente. Unidades mecanizadas do 6o Exército se incorporaram à batalha e golpearam o flanco direito dos russos, empurrando-os para a armadilha montada às suas costas pelos tanques de Kleist. As forças de Timoshenko, até aquele momento vitoriosas, viam-se agora diante da mortal ameaça de ficarem totalmente cercadas.

Travando duros combates, as tropas alemães convergiram do norte e do sul, sem que os russos conseguissem bloquear o seu avanço. A 22 de maio, o cerco fechou-se definitivamente. No seu interior, 20 divisões de infantaria, 7 de cavalaria e 7 brigadas blindadas russas continuaram lutando, numa resistência feroz, que se prolongou até o dia 28. Ao finalizar a cruenta batalha, os alemães capturaram 239.000 soldados, 1.240 tanques e 2.000 canhões. Essa vitória, a que logo se havia de somar a de Von Manstein, na Criméia, deixou à Wehrmacht o caminho livre para iniciar a grande ofensiva contra Stalingrado e o Cáucaso. Milhares de soldados, canhões, tanques e aviões, estavam já prontos para intervir nessa arriscada empresa que, de acordo com o pensamento de Hitler, teria que culminar inevitavelmente, com a definitiva derrota da União Soviética.

Aliança anglo-soviética

No dia 11 de abril de 1942, Roosevelt enviou uma mensagem a Stalin, na qual expressava que, em vista da impossibilidade de uma entrevista pessoal entre os dois, impunha-se a presença de Molotov em Washington, com a maior brevidade, a fim de discutir a possibilidade de abrir uma segunda frente na Europa, no decorrer daquele ano.

Stalin, contudo, resolveu enviar Molotov primeiro a Londres, para discutir com Churchill a assinatura de um tratado, no qual os britânicos reconheciam os direitos da URSS nos territórios por ela ocupados por ocasião da invasão da Alemanha. Esses territórios incluíam os Estados Bálticos (Lituânia, Estônia e Letônia), a parte oriental da Polônia e alguns pedaços da Romênia e da Finlândia. Roosevelt já tinha conhecimento dessas exigências do líder russo e se opunha a elas. Por isso, antes que Churchill respondesse à mensagem de Stalin, aceitando a viagem de Molotov, Roosevelt lhe pediu, por intermédio do seu embaixador em Londres, que resistisse às pressões do líder russo.

Molotov chega a Londres, num quadrimotor soviético, no dia 20 de maio. Imediatamente reuniu-se com Anthony Eden e reiterou as pretensões soviéticas, especialmente no tocante aos territórios poloneses. Eden negou-se a discutir esse ponto e, no dia seguinte, enviou ao Secretário de Estado americano, Cordel Hull, um informe sobre os assuntos tratados. Hull, com base nesses dados, redigiu um memorando que apresentou a Roosevelt para ser aprovado. Nesse documento, o Secretário de Estado propunha que, se apesar da oposição americana, os russos e britânicos firmassem um acordo que incluísse cláusulas com reivindicações territoriais, o governo dos Estados Unidos deveria manifestar publicamente sua oposição a este acordo. Roosevelt aprovou integralmente a nota. Ante a atitude decidida de Roosevelt, Eden deixou de lado qualquer fórmula de compromisso e declarou terminantemente a Molotov que os britânicos assinariam um tratado público de aliança, em que não se incluísse nenhum tipo de cláusula com reivindicações territoriais. Molotov então resolveu ceder.

No dia 24 o embaixador americano, Winnant, entrevistou-se com Molotov e salientou novamente, a oposição do seu governo a que se discutisse, nesse momento, qualquer tipo de problema territorial. Salientou também que Roosevelt projetava abrir a segunda frente o mais cedo possível. Estas declarações, sem dúvida, induziram Molotov a abandonar seus projetos primitivos. Assim, a 26 de maio, Molotov e Eden firmaram o tratado de aliança, no qual foram completamente omitidas quaisquer cláusulas reivindicatórias.

ANEXOS
Dora

Os homens avançaram em silêncio, o máximo que puderam. Eram comandado por um jovem capitão. Um sargento que os acompanhava, veterano de cem campanhas, perscrutando a obscuridade com seu olhar penetrante...
- Atenção, companheiros, ali há um movimento estranho... - sussurrou debilmente.
O capitão, distribuindo rapidamente seus homens, protegeu-se, por sua vez, no buraco de uma granada. A patrulha tinha uma missão especial. À retaguarda haviam chegado informações pouco tranqüilizadoras. Informações que falavam de um canhão. Mas não de um canhão simples, como todos. Tampouco um canhão que superava em alguns centímetros os que já eram conhecidos. As informações falavam de um monstro. Efetivamente, assim havia qualificado o chefe do grupo encarregado da vigilância do depósito de munições russas de Sewernaja.
O capitão russo, no seu refúgio, meditava. Evidentemente aquela missão não tinha sentido... Para que preocupar-se com um canhão mais, um canhão menos, qualquer que fosse o seu calibre... O depósito de munições estava numa caverna, aberta na rocha viva, a 30 metros de profundidade... Nenhum canhão podia alcançá-lo, era impossível...
Repentinamente um violento resplendor iluminou todo o local. Os homens colaram-se ao solo instintivamente. Uma fração de segundo depois chegou o ruído. Foi um troar que aumentou sua intensidade até converter-se numa detonação, estarrecedora.
A terra estremecia sem cessar, sacudida pelos canhonaços. Violentos relâmpagos rasgavam o espaço. O silvo dos seus projéteis fendia o ar. Um furacão de fogo e aço desencadeou-se contra as posições russas.
Os homens da patrulha começaram a retroceder. Penosamente se arrastaram até suas posições. Faltavam apenas algumas centenas de metros, quando uma detonação, única, incrível, horrenda, partiu das linhas alemães. O Dora havia disparado pela primeira vez.
O famoso Dora, de 80 cm, havia sido projetado, estudado e fabricado para demolir as defesas da Linha Maginot, na França. Contudo, o desenrolar das operações tornou desnecessária a sua utilização. Era, sem dúvida, uma maravilha de técnica de artilharia. Seu comprimento total atingia 30 metros, e seu suporte tinha a altura de uma casa de dois andares. O transporte do Dora e seu equipamento havia requerido a utilização de 60 vagões ferroviários. Duas seções de artilharia antiaérea vigiavam e defendiam o Dora dos ataques da aviação inimiga. O Dora não compensou, como rendimento, seu elevadíssimo custo, porém conseguiu efeitos que pareciam impossíveis: fazer voar um depósito de munições, aberto na rocha viva, a 30 metros de profundidade, por exemplo.

A última bateria

O último avanço alemão sobre Sebastopol foi precedido por um furacão de fogo e aço. Os atacantes lançaram sobre os defensores da cidade toda a massa dos seus recursos. Tanques, lança-chamas,. Bombas, granadas, tudo foi arrojado sobre as linhas russas, violentamente. Um dilúvio de ferro e fogo se abateu sobre os restos informes das defesas russas. Os aviões alemães, por sua vez, descarregaram implacavelmente todo o poder de suas bombas e metralhadoras. E então, por trás de todo aquele caos de disparos, explosões, lamentos, silvos de bombas, surgiram os carros de assalto. De frente para as linhas alemães se encontrava uma divisão russa. Uma divisão que resistiu firmemente ao ataque alemão. Um a um, seus homens estavam tombando. Companhias inteiras haviam sido tragadas. Batalhões desapareceram. Porém, os restos da divisão não davam um passo atrás. Ao produzir-se o ataque final, ao cair sobre eles uma massa de ferro e fogo, a divisão estava reduzida a 130 homens. Nem um mais. As unidades alemães, avançando cautelosamente se aproximaram daquele punhado de homens. Os russos, por sua vez, agrupando-se, entrincheiraram-se em redor de uma bateria. A última bateria.
O combate desproporcionado, grotesco quase, entre uma força 100 vezes superior, e uma companhia esgotada, travou-se, furioso. Aquilo não podia durar. Era impossível. Não era humano resistir numa proporção de um contra cem. E a ordem chegou: - Abandonar posição! - foi gritada com voz rouca entre o troar dos canhões e o estouro das granadas. Porém, nenhum homem abandonou sua trincheira. Nenhum soldado deu um passo atrás. Todos continuaram carregando e disparando suas armas, ininterruptamente, sem descanso. Nenhum combatente admitiu aquela ordem que podia salvá-los. Todos preferiram morrer combatendo. Três dias e três noites durou aquela luta desproporcional, irreal. Três dias e três noites de sucessivos ataques alemães.
Quando, vencida a resistência dos defensores, os primeiros soldados alemães puseram o pé no reduto, os últimos 40 homens que defendiam a bateria, fizeram-na voar pelos ares. Foi seu último gesto de renúncia. Terminara a epopéia da última bateria.

O Exército atacante

Forças de Manstein que atuaram no ataque a Sebastopol:
54o Corpo de Exército
Divisões de Infantaria: 22a, 24a, 50a e 132a com 121 baterias de artilharia (56 pesadas e ultrapesadas, 41 leves, 18 de obuses e dois setores de canhões de autopropulsão).
30o Corpo de Exército
Divisões de Infantaria: 28a, 72a e 170a com 56 baterias de artilharia (25 pesadas e ultrapesadas, 25 leves, 6 de obuses, setor de canhões de autopropulsão, 1 setor de tanques explosivos Goliath dirigidos por rádio).
Corpo de Montanha Romeno
Divisões de Montanha: 1a e 18a com baterias de artilharia (12 pesadas e 22 leves)
8o Corpo de Aviação
General von Richtofen
7 grupos de bombardeiros
4 grupos de caças
3 grupos de Stukas
Com um total de 400 aviões

Erich Von Manstein

Erich Von Manstein, mais conhecido como Von Manstein, nasceu a 24 de novembro de 1887, em Berlim. Posteriormente à morte de seu pai, foi adotado pelo General Georg Von Manstein de quem tomou o nome. Entre 1900 e 1906, o futuro marechal recebeu instrução militar no Corpo de Cadetes. Ingressou posteriormente no 3o regimento da Guarda de Berlim, e de 1913 a 1914 cursou a Escola de Guerra.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, foi ajudante de regimento no 2o de reserva da Guarda. Atuou na Bélgica, Prússia Oriental e Polônia do Sul. Foi gravemente ferido em novembro de 1914. Voltou ao serviço ativo em 1915, como oficial-ajudante e, em seguida, como oficial do Estado-Maior. Interveio na ofensiva estival de 1915, na Polônia do Norte, e atuou na campanha da Sérvia, desde o outono de 1915 até a primavera de 1916. Participou da Batalha de Verdun, na do Somme, na da primavera de 1917, no Aisne. No outono de 1917, foi oficial de Estado-Maior da 4a Divisão de cavalaria. Em maio de 1918, oficial de Estado-Maior da 213a Divisão de Infantaria no ocidente. Participou na ofensiva de Reims em maio e julho de 1918.
Depois de assinado o armistício, von Manstein ingressou na Reichswehr. Em fevereiro de 1934 foi chefe do Estado-Maior da 3a Região Militar de Berlim. Em julho de 1935, chefe da Primeira Seção do Estado-Maior do Exército.
Até outubro de 1936, general-de-brigada e primeiro chefe de serviços do Estado-Maior Central.
Depois da mobilização de 1939, chefe do Estado-Maior do grupo de exércitos do Sul (Von Rundstedt). Nesse posto tomou parte na campanha da Polônia. Em outubro de 1939, com o mesmo cargo, passou para o grupo de exércitos A do General Rundstedt, na frente ocidental.
Em março de 1941, foi comandante do 56o Corpo de Tanques. Em setembro de 1941, desempenhou a chefia do 11o Exército. Conquistou a Criméia. Na primavera de 1942 derrotou e aniquilou os exércitos russos desembarcados em Kertsch. Depois tomou Sebastopol. Recebeu então o posto de marechal.
Em agosto de 1942, foi incumbido da conquista de Leningrado, que não pôde levar a cabo.
Em novembro de 1942, depois que os russos cercaram o 6o Exército, em Stalingrado, foi nomeado comandante-em-chefe do grupo de exércitos do Don. Procura então, infrutiferamente, salvar o 6o Exército, bloqueado.
No verão de 1943, participou da última ofensiva alemã do leste. Quando esta fracassou, comandou o grupo de exércitos do Sul. Dirige suas tropas em batalhas defensivas, até alcançar a fronteira polonesa. Em fins de março de 1944, Hitler o retira do comando, em virtude das discordâncias que tinha com o ditador, acerca da orientação das operações.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Morre soldado da foto-símbolo da vitória da URSS sobre Hitler na Segunda Guerra

Abdoulkhakim Ismailov morreu aos 93 anos no Daguestão.
Foto da bandeira soviética sobre o Reichstag pode ter sido encenada.

Um dos três soldados da extinta URSS imortalizados numa fotografia que mostra a bandeira soviética hasteada no telhado do Reichstag, a sede do Parlamento alemão, em Berlim, em maio de 1945, morreu aos 93 anos, anunciaram nesta quarta-feira (17) as autoridades russas. Abdoulkhakim Ismailov, que foi declarado herói da União Soviética, morreu na terça-feira em Khassaviourt, Daguestão, república do Cáucaso russo, informou a prefeitura da cidade em seu site.

"Sua enorme experiência de vida e os serviços que prestou à pátria ficaram para sempre gravados nas memórias de gerações de hoje e de amanhã", segundo o comunicado.

Ismailov, que serviu ao Exército Vermelho desde 1939, chegou a participar da terrível batalha de Estalingrado (1942-1943), vencida pela URSS e que marcou o início do recuo das tropas nazistas de Adolf Hitler.



Mas, foi nas ruínas de Berlim que se encontrou com a História, tornando-se um dos três soldados fotografados pelo jornalista da agência TASS, Evgueni Khaldei, quando agitava a bandeira soviética sobre o Reichstag.

A foto tornou-se símbolo da derrota do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Mas historiadores afirmam que ela pode ser uma montagem e que teria sido tirada dias depois da tomada da cidade, com objetivo de propaganda. A imagem é comparada, com frequência, com a fotografia que mostra seis soldados americanos fincando a bandeira estrelada em fevereiro de 1945 na Ilha de Iwo Jima no Japão.

FONTE: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1493908-5602,00-MORRE+SOLDADO+DA+FOTOSIMBOLO+DA+VITORIA+DA+URSS+SOBRE+HITLER+NA+SEGUNDA+GUE.html

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

UM BALANÇO DA WEHRMACHT EM 1944

No período anterior ao assalto final que os exércitos aliados preparavam para lançar sobre a Alemanha, a Wehrmacht encontrava-se no limite de suas forças. As 380 divisões disponíveis em vésperas da invasão da Normandia estavam reduzidas a 290. A Alemanha havia perdido 300.000 homens na Itália, 1.100.000 na França e uma quantidade maior ainda na Rússia. As sucessivas defecções da Romênia, da Finlândia e da Bulgária lhe haviam custado 30, 15 e 25 divisões, respectivamente. Para cobrir as perdas, o Reich havia ordenado, em agosto, uma mobilização total de todos seus recursos humanos. Até 16 de outubro, a mobilização havia sido total, sem distinção de idades.

A Luftwaffe e a marinha de guerra, por sua vez, haviam cedido à Wehrmacht parte de suas forças, com as quais haviam sido formadas algumas divisões. A elas se juntava o Volkssturm, integrado por homens de 16 a 60 anos e encarregado, em princípio, da segurança na Alemanha. Sua criação deveria permitir o envio de um certo número de divisões para a frente de batalha.
Resumindo, dos 18 milhões de alemães em condições de serem mobilizados, em princípio de 1945, 5 milhões trabalhavam na produção de elementos bélicos, 13 milhões estavam disponíveis para a guerra, 4 milhões eram inaptos para o serviço na frente e 2 milhões atuavam como reservas.

A Luftwaffe, por sua vez, ocupava 2 milhões de homens, e a marinha e as formações especiais, cerca de meio milhão. Finalmente, contando 1 milhão de feridos e enfermos, a Wehrmacht tomaria parte na batalha final com cerca de 4 milhões de homens.
A distribuição das divisões era a seguinte:
Frente do oeste: 77 divisões
Frente do leste: 135
Itália: 28
Noruega: 20
Dinamarca: 20
Além disso, 68 divisões operavam em frentes secundárias. No total, portanto, eram 280 divisões atuando em frentes ativas, das quais 50 eram das SS, 15 húngaras, 3 italianas e cerca de 10 formadas por elementos heterogêneos. Cerca de 45 eram blindadas (10 na frente ocidental, 20 na frente polonesa e 15 na frente húngara). Porém, nenhuma destas divisões dispunha de mais de 100 tanques.

Fonte: Coleção A segunda guerra mundial/ Editora Codex